Contrariando as expectativas, não morri. E pela primeira vez
depois de muito tempo, era até capaz de me sentir vivo. Aquilo de ter sangue
nas veias, batimentos cardíacos acelerados. Suar frio. Tremer.
Acontece amigo, é que faz um tempo que enterrei meu coração,
e jurei pra mim mesmo que viveria muito bem sem ele. Cavei um buraco bem fundo,
coloquei o pobre coitado lá dentro, e tapei com pás de orgulho ferido,
sentimentos desperdiçados, sonhos, desejos, vontades, e toda aquela carga
dramática inerente a mim.
Passava os dias apaixonado por ninguém, desejando a própria
companhia, me arrastando pra cima, e pra baixo. Curtia a minha sombra nas
noites de sono, nos filmes românticos, nas letras das canções. Nunca, depois de
ter meu coração soterrado, deixei que alguém ocupasse o lugar do “você” nas
minhas músicas favoritas.
Depois de um certo tempo sozinho, você começa a banalizar
isso de sentimentos. Começa a ver as pessoas como bocas e corpos. Números. Mais
um, mais uma, mais uns.
Na verdade, agora percebi que isso de sentir é meio que como
andar de bicicleta. Clichê. Você passa anos sem pedalar, até que surge a
oportunidade, até que surge alguém que se diz disposto a te segurar para não
cair. Te proteger. E lá vai você, receoso da queda, contando os segundos pra
desabar, mas com uma vontade imensa de sentir o vento no rosto. E (con)segue.
Ah, como é bom respirar fundo e não sentir mais aquela
morbidez gelada de um coração sem ninguém. Como é bom atravessar os dias não
pensando naquele vazio do peito, que vez ou outra, a gente é até capaz de preencher
com outros vazios. Com outros corações tão puros e ocos quanto os nossos. Com
ilusões. Fantasias. Decepções.
Contrariando as minhas próprias expectativas, não morri. E
parece que aqui dentro, alguma coisa ressurgiu. Uma chama, um fogo, uma esperança.
Algo que diga que eu ainda sou capaz de tentar. De dar minha cara a tapa. De
apanhar, mas também de bater. Capaz de me mover e não só, lamentar.
E lá vamos nós. Receosos da queda, contando os segundos pra
desabar, mas com uma vontade imensa de sentir o vento no rosto. E
(con)seguimos.
- Matheus Rocha
( Texto original:
http://www.neologismo.com.br/2014/02/contrariando-as-expectativas.html#more)
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