quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Da série: cartas para vó Joanna


Querida vó Joanna.

Conversei estes dias com a Vânia e ela me indicou um livro que contava a história de uma mãe que tinha perdido seu filho. Então, esta mãe, para tentar amansar a saudade e superar a falta que ele fazia, escrevia-lhe cartas. Estas cartas eram guardadas na gaveta e foram respondidas por ele em uma determinada situação em um centro espírita. O nome do livro é 'Gaveta da Esperança'. 

Vó, não espero que você responda as minhas 'cartas'  - embora reconheça que seria maravilhoso, mas escrever sobre estes acontecimentos já torna a vida um pouco mais suportável. 

Bem, quero começar contando que estou ouvindo 'Don't cry for me, Argentina' e lembrei daquele dia que estávamos no quarto, e o Victor colocou ela para tocar. Sei que é uma das suas músicas preferidas, e torço para que o som dela esteja chegando até onde você está.

No último final de semana, fomos para Aparecida do Norte. Você me deu de presente a passagem por ter te cuidado em janeiro. Sei o quanto você queria estar presente nesta viagem que já virou tradição na família. Confesso que foi estranho não ter você presente fisicamente. Você sempre dizia que sonhava em morar nesta cidade porque sempre estava ensolarado, e nos dias quentes o seu reumatismo não doía. Você esteve lá dia 11 de setembro deste ano pagando uma promessa feita pela sua recuperação. Eita 2015! Mas fico tão feliz por você ter aproveitado mais esta viagem, no lugar que você mais gostava de ir e ficava contando os dias.

Você sabe que tinha uma promessa minha a ser paga também, mas cumpri esta promessa de uma maneira diferente. Mentalizei entregando uma rosa branca para Nossa Senhora Aparecida e outra para você. Espero que tenha recebido. O que farei daqui em diante, será entregar uma rosa branca à alguma vozinha que encontrar pela rua. E não será uma rosa qualquer, será uma rosa específica, para uma vózinha específica. Basta encontrá-la. 

O João lembrou quando tínhamos que te empurrar pra subir a rampinha de acesso à igreja... o que era muito engraçado. Rimos juntos lembrando deste fato. Lembramos também de quando íamos na feirinha comprar presentes para aqueles que não puderam estar viajando, ou mesmo, o presente do amigo secreto. Você sempre tinha dúvidas de qual presente levar e sempre pedia nossa opinião. E pasme vó, aqueles vendedores que imitam um gato ainda existem! 

Quando fomos à missa, confesso que o choro veio à tona. Lembrar de tantas vezes que víamos juntas as missas pela televisão foi algo saudoso. Olho pro lado e vejo que o João também está chorando. O vô Jango nota nosso momento e nos abraça. Ficamos os três por um bom tempo assim. O tio Sergio estava do lado, mas você sabe o quanto ele é meio antisocial, né? (rs)

Terminando a missa, eles saem na frente e eu logo atrás. Estávamos voltando ao hotel quando percebo uma mulher chorando com uma toalha no rosto virada para a parede. Peço para o João esperar, vou até a mulher, toco-a. Ela olha para mim, chora e me abraça. Pergunto o que está acontecendo, ela conta que seu marido acabara de falecer. Eles também faziam anualmente a viagem para Aparecida. Seu nome: Maria Aparecida. Aos prantos ela fala: 'na hora da missa, veio uma abelha e pousou em mim. Tenho certeza que era ele se despedindo'. Achei estas palavras tão lindas e tão profundas. Contei sobre nossa história. Sobre sua história. Nos abraçamos. Entre as dores de cada uma, conseguimos nos confortar. As coincidências eram muitas...

Não sei como terminar esta carta. Na verdade ela não terá fim, pois escreverei mais e mais pensando em você. Só queria que você soubesse que estamos bem e tentando dar continuidade à vida... Sei que não foi por acaso que cheguei até aquela mulher, uma voz sussurrava: 'vá até ela'. Eu fui, e assim esta viagem ficou mais leve...




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